Thursday, March 16, 2006

Papai

(Por: Rodrigo Lima)
Não consigo me lembrar há quanto tempo estou preso, a última coisa que me recordo foi de ter saído do tabalho e ter entrado em meu carro. Agora acordo com uma puta dor de cabeça, ainda consigo ver pontinhos brancos no meu campo de visão. Levo vários segundos antes de conseguir discernir algo a meu redor. Estou em uma espécie de masmorra, com correntes partindo dos meus braços e pernas e preso à parede. O único ponto de luz provém de um buraco na parede logo à minha frente, cerca de 3 metros distante de mim. O odor é terrível, rançoso e pesado, quase é possível cortá-lo no ar, uma mistura de fezes, decomposição, doença e o mau, puro e simples. Se Grenouille estivesse aqui, teria um colapso, com seu olfato sobrenatural. O quarto tem cerca de3x3 metros, mas não consigo ver muita coisa a escurida é tão pesada quanto o odor. A luz que entra pela parede me permite ver muito pouca coisa, apenas minhas correntes, a parede atrás de mim e partes do meu corpo. Tento forçar meu corpo para a frente, com toda a minha força, mas é inútil, após várias tentativas o máximo que consigo é machucar meus pulsos e tornozelos. Mudo de tática e começo a gritar por ajuda, até onde minhas cordas vocais permitem, também inútil, o único som que escuto é o meu próprio eco na sala quase vazia. Exausto, começo a choramingar, nada disso devia estar acontecendo, estou em pleno século XXI, morando numa grande cidade, lugares como esse onde estou não deveriam nem mais existir. Tento convencer minha mente de que tudo é um sonho e vou acordar logo, provavelmente gritando e arfando, mas não consigo, é tudo muito real. Começo novamente a puxar as correntes e gritar por socorro desesperadamente, me machuco bastante dessa vez e minha garganta parece que está forrada com cacos de vidro. Me penduro nas correntes e mesmo achando que nunca mais iria conseguir dormir, adormeço.

Acordo. Não sei quanto tempo se passou, mas meus braços ardem como se houvessem sido arrancados. Não é uma boa idéia dormir pendurado pelos braços. Fico novamente de pé, estou fraco e quase caio, mas consigo me manter de pé. Além do fedor e da escuridão, agora a temperatura ambiente parece ter subido para uns 45 graus. Estou completamente suado e os insetos fazem do meu corpo um parque de diversões. Começo a imaginar quem poderia ter feito isso comigo, faço uma lista mental de todos os meus inimigos e pessoas a quem prejudiquei, a lista é imensa, afinal eu sou um advogado e advogados fazem muitos inimigos no decorrer de sua carreira, tento diminuir o tamanho da lista, para apenas casos de ódio extremo, a lista continua grande. Meu estômago começa a doer, me dou conta que não como ou bebo nada desde que saí do meu escritório, não sei quanto tempo atrás. Me distraio o máximo que posso, fazendo minha lista mental de inimigos, mas não consigo mais me concentrar nisso e o terror novamente cai sobre mim. Começo a me deseperar novamente, mas já não tenho forças para tentar arrancar os grilhões da parede, meus tornozelos e pulsos estão em carne viva. Minha mente começa a deliszar lentamente rumo ao desfalecimento, tento me manter acordado, mas minhas pálpebras ficam pesadas e começo a piscar incontrolavelmente.

- Acorda seu filho da puta. - Escuto uma voz infantil arranhando no fundo de minha mente.

Abro os olhos, assustado, totalmente desperto dessa vez. Parada à poucos metros de mim, está uma garotinha com lindos cabelos louros caindo até a cintura. Ela usa um vestido rosa com babados e uma fita no cabelo, combinando com o vestido. Abraçada junto à seu corpo, leva uma boneca de porcelana, daquelas muito antigas. Seu olhar é triste, mas ela não aparenta medo. Começo a recuperar a esperança de conseguir sair desse lugar e depois tentar descobrir quem fez isso comigo.

- Ei, garotinha, qual o seu nome? - Eu pergunto.

Ela nada responde, apenas fica me olhando, com os grandes olhos azuis e tristes. Por um momento, acredito que já a conheça de algum lugar.

- Onde estamos? - Continuo o interrogatório.- Eu quero sair daqui, será que você pode me ajudar?

Novamente nenhuma resposta, mas agora ela começa a se aproximar de mim.Tenho a impressão que ela não move os pés, é como se ela estivesse flutuando, porém provavelmente é apenas minha mente cansada me pregando alguma peça. Ela chega perto o suficiente para que eu possa sentir o seu cheiro agradável, aquele cheiro de sabonete e xampu infantil. Ela levanta o rosto e me encara, com um sorriso tão brilhante que por um momento acho que vou enlouquecer. Delicadamente ela deixa seu braço direito pender ao lado do corpo, solta sua boneca de porcelana, que cai no chão e fica me fitando com seus olhos vazios. A garotinha começa a acariciar o meu corpo que estremece à seu toque. Um misto de prazer e repugnância percorre meu corpo, de baixo para cima, arrepiando todos os meus pelos. Suas mãos delicadas descem em direção ao meu pau e começam aquele movimento de vai e vem e, mesmo contra todas as probabilidades devido as minhas condições atuais, tenho uma ereção tão forte que parece que minhas bolas vão explodir. O pequeno anjo move sua boca em direção ao meu instrumento e continua o movimento que tanto me agrada. Ao longe escuto ela dizendo: "Você gosta disso, não gosta, papai?".Talvez tenha sido somente minha mente pregando mais uma peça, já que olhei para ela e não parecia emitir nenhum som. Me aproximo do êxtase e quando estou para explodir, o prazer é trocado por uma dor incomparável, algo que eu nunca senti em toda minha vida, mesmo na época em que era criança e caí da lage, quebrando vários ossos e, como castigo meu pai ainda me surrou antes de me levar para o hospital. A dor vem subindo, do meu ventre até meu estômago e sinto um líquido quente escorrendo entre minhas pernas. Fico com medo de olhar para baixo, mas me forço a olhar. O que vejo quase faz minha mente se partir em pedaços. No lugar onde estava meus órgãos genitais agora encontra-se apenas um grande buraco, pelo qual jorram jatos de sangue e pedaços de órgãos jazem pendurados. Olho para a garotinha, mas agora seu rosto se transformou nas faces de um pequeno demônio, com uma boca redonda e cheia de dentes pontiagudos, lembrando aquelas ampliações das faces dos vermes, que vemos nos livros de ciência. A menina-demônio-verme parece sorrir para mim e vejo dentro de sua boca ensaguentada as partes que agora me faltam. Tento gritar, mas não consigo, fico paralizado e mudo de terror.Todo o meu corpo começa a tremer, minhas pernas falham e fico pendurado apenas pelos braços. A dor continua e imploro para acordar desse pesadelo, desmaiar ou morrer de uma vez, mas nada disso acontece, continuo acordado, a dor se infiltrando em todos os pontos do meu corpo, mal consigo pensar.Minhas pernas agora estão completamente vermelhas ensopadas com o meu sangue.

- Você gosta disso, não gosta, papai? - Novamente a voz em minha mente. E a criança-demônio enfia sua mãozinha pela abertura em meu ventre. Suas garras cortam como uma navalha bem amolada e sinto alguma coisa se romper dentro de mim. À essa altura dor já passou qualquer ponto suportável, mas minha mente se recusa à apagar. Ela parece estar procurando algo dentro de mim, sinto suas garras me cortando por dentro e abrindo caminho através dos meus órgãos; intestino, estômago, esôfago e chegar ao coração. Sua mão se fecha em torno do dele e começa à apertar, imploro pela morte, mas não sou atendido. A dor, não consigo mais pensar, lágrimas descem em rios pelos meus olhos e o sangue jorra pelo meu ventre enquanto ela puxa seu braço, segurando meu coração em sua mão pequenina. Não acredito no que vejo, meu coração ainda pulsa em sua mão, e eu continuo vivo, em frangalhos, mas vivo.Acredito que seja a dor, deixando minha mente turva, pois isso é impossível, ninguém sobrevive sem o coração.

- Você gosta disso, não gosta papai? - A maldita voz em minha mente se eleva mesmo acima da dor. - Trouxe mais alguns amiguinhos para brincar com você.

A luz que entra pela parede oposta pisca por alguns instantes e entre uma piscadela e outra, vejo que mais e mais crianças, ou seja lá o que forem, surgem diante dos meus olhos. Vários meninos e meninas, com idades variadas, mas nunca mais velhas que uns 10 anos de idade. Grito para se afastarem de mim, mas não me escutam e continuam avançando, com os olhos vazios e um meio sorriso no rosto.

Algo se rompe em minha mente, acho que enlouqueci completamente, mas a dor não desaparece e a única coisa que consigo sentir além da dor é aquela voz:

- Você gosta disso, não gosta papai?

Nota retirada de um jornal de grande circulação nacional.

Foi feita justiça? Por Ronaldo Soares.

"Faleceu ontem, em um acidente de carro, Richard Silvestre. A causa da morte foi traumatismo craniano, após acertar de frente um caminhão que vinha na contra-mão. Richard ficou conhecido há 5 anos, após ser acusado de estuprar e matar mais de 30 crianças. Advogado brilhante, fez sua própria defesa e foi inocentado, mesmo havendo provas suficientes para condená-lo.Aproveitou-se de uma brecha no sistema legal e conseguiu sair livre de todas as acusações. A única menina que conseguiu fugir do cativeiro, reconheceu Richard e descreveu com detalhes todas as atrocidades as quais ele à obrigava a se submeter. Ela ainda contou que ela a obrigava à chamá-lo de papai, apelido pelo qual ficou conhecido na mídia. Procuramos algumas das mães e perguntamos se achavam que a justiça havia sido feita finalmente. A maioria disse que sim, que ele teve o que mereceu. Mas uma delas disse:

- Foi muito pouco para ele, pois ele não sofreu nem um décimo do que causou às nossas crianças. Deveria ir parar no inferno, onde sofreria horrores durante toda a eternidade."

Introdução (continuação)

Escrevi esse conto há algum tempo, pensando na reportagem onde um rapaz pulou da janela após a polícia federal confiscar seus computadores, onde haviam fotos de pedofilia. Pensei comigo, isso foi pouco, qualquer animal que faça uma coisa dessas com uma criança, merece sofrer eternamente. Então saiu esse conto, espero que tenham gostado.

Irmão

(Por: Rodrigo Lima)
Eles dizem que eu imaginei tudo isso. Dizem que eu matei minha filha e meu irmão, mas estão muito enganados. Quando eu contei a verdade me puseram aqui, nesse hospício, carinhosamente chamado de depósito de loucos. Não lembro há quanto tempo estou aqui, mas eles agora acham que estou me comportando bem e finalmente atenderam o meu pedido e me deram papel e lápis, assim posso escrever a minha história, não que eu vá mostrá-la para alguém, à todos a quem eu tento contar, desistem de me ouvir nos 10 primeiros minutos. Eu preciso tirar isso de dentro de mim, talvez eu consiga me sentir melhor após escrevê-la, talvez finalmente ele atenda o meu chamado.

Eu nasci prematuro e de um parto difícil, no qual minha mãe morreu. Meu pai nunca me perdoou, de forma que não me dava muita atenção e sempre que podia, descontava todas as suas frustrações em mim. Sobrou-me apenas o meu irmão, já que meu pai estava sempre ausente. Meu irmão era 2 anos mais velho que eu e fomos criados juntos, onde ele ia, eu estava logo atrás, sempre o admirei e tentava copiá-lo em tudo. Isso durou até o final da minha adolescência, quando tivemos que nos separar. Ele se alistou na marinha e partiu rumo à Africa, onde iria permanecer durante vários anos. Antes de partir ele me deu vários conselhos e o melhor deles foi para que eu continuasse meus estudos. Assim o fiz, estudei, me formei e segui minha vida. Nos primeiros anos, trocávamos correspondências, ele me contava sobre suas experiências num país tão exótico, com tantos costumes e religiões diferentes e eu o mantinha informado sobre a minha vida e de papai. A carta mais difícil de escrever foi aquela em que tive que relatar a morte de papai. Fumante compulsivo, foi arrastado para a morte por um câncer de pulmão. Agora meu irmão era o último integrante da minha família. Ainda continuamos a nos corresponder por mais algum tempo, mas de repente as cartas cessaram. Ele parou de me enviá-las e as que eu mandava, voltavam. Entrei em contato com a Marinha e me informaram que ele havia dado baixa e não se tinha mais notícias dele. Fiquei triste e preocupado, mas não podia fazer muita coisa, pois minha situação financeira não me permitia deixar o país à procura dele.

Vários anos se passaram e eu nunca consegui esquecê-lo completamente, porém já tinha aceitado o fato de que ele provavelmente estava morto. Qual surpresa não tive, naquele fatídico dia em que bateram à minha porta e quem estava parado à soleira era meu irmão. Nos abraçamos durante vários minutos, eu chorava de felicidade e ele também. Ele me contou como havia ficado rico, não entrando muito em detalhes, apenas disse que envolvia transações marítimas e que não escreveu mais porque perdeu o endereço e os negócios estavam lhe tomando muito tempo, mas agora as coisas iam ser diferente, ele havia voltado para cuidar do irmão caçula e nada iria estragar nossa nova vida. Ingênuo, acreditei em tudo.

No começo tudo correu às mil maravilhas. Ele nos comprou imóveis, carros, lanchas tudo o mais que o dinheiro podia comprar. Víviamos nos divertindo, estávamos em todas as festas e lugares badalados. Morávamos na mesma casa e compartilhávamos quase tudo. Ele só havia me pedido para deixar o porão para ele, pois iria armazenar umas tralhas que ele havia trazido da África e não gostaria que fossem tocadas. Aceitei sem problemas, curiosidade nunca tinha sido uma das minhas maiores qualidades.

Entre uma festa e outra, ele me apresentou Sofia, uma linda morena, que ele disse ter trazido da África especialmente para me conhecer. Na época achei que ele estivesse brincando comigo e não dei muita bola, até porque me apaixonei por Sofia, foi amor à primeira vista, diria mais, que foi ao primeiro vislumbre, parecia que eu estava enfeitiçado. Ele sempre apoiou o meu romance com Sofia e vivia perguntando quando iríamos nos casar e dar sobrinhos à ele. Não demorou muito e aconteceu, Sofia engravidou e resolvemos nos casar. Nove meses depois, nasceu Jaqueline, minha filha, muito parecida com a mãe, mas tinha os meus olhos. Estava extasiado e não conseguia lembrar se já havia sido tão feliz. Dias após o nascimento de Jaqueline, Sofia desapareceu, como num passe de mágica. Tentei de tudo que estava ao meu alcance para encontrá-la, meu irmão também me dizia estar movendo mundos e fundos para isso, mas nunca conseguimos sequer um rastro dela. Só consegui suportar a sua partida porque agora tinha Jaqueline. Na época não entendia o sumiço dela, já que tinhamos uma vida de causar inveja nos outros. Meu irmão fez questão de ser o padrinho de Jaque e eu não fiz nenhuma objeção à isso. Sempre que os via juntos, parecia que tinham sido feitos um para o outro. Um dia ao vê-lo brincando com Jaqueline e parecendo a pessoa mais feliz do mundo, de brincadeira, perguntei se ele já tinha algum filho largado em algum porto. Lembro-me até hoje de ter visto como suas feições se transformaram e ele me disse que havia descoberto ser estéril e que se não fosse isso, seria muito mais feliz há muito tempo. Nunca mais toquei no assunto.

Passaram-se 3 anos, desde que Jaqueline nascera, 4 que eu conhecera Sofia e 5 que meu irmão voltara. Nos últimos meses, notei uma drástica mudança em meu irmão, ele deixou de ser aquela pessoa amigável e serena que fora desde que voltara. Agora eu sempre o pegava olhando sobre os ombros, tomando sustos com qualquer barulho e sempre murmurando algo sobre conseguir mais tempo, sobre adiar sua ida; estava também obcecado por minha filha. Estava sempre por perto e dizia que era para protegê-la, pois ela tinha algo muito maior pela frente do que de repente morrer num acidente de carro ou coisa parecida. Eu estranhei, mas achei que o dinheiro o havia tornado excêntrico, apenas isso. Achei que ele tinha medo que algo acontecesse à ela, por ser a nossa única herdeira.

Lembro-me até hoje daquele dia infernal, 28 de Novembro. À pedido de meu irmão eu havia viajado para resolver uns problemas, a previsão era de eu voltar apenas dois dias depois, mas consegui voltar antes do previsto. Estava morrendo de saudades de minha princesinha e fui direto à escola para depois levá-la para casa. Para minha surpresa, me informaram que ela não tinha ido para a escola nesse dia. Fiquei preocupado, imaginei que ela tivesse adoecido e meu não tivessem me contado nada para eu não me preocupar. Entrei no carro e rumei para casa, no caminho liguei para a babá que tomava conta de Jaque, ela me disse que meu irmão à tinha liberado uns dias antes e que ele mesmo ia tomar conta da menina. Estranhei e tentei ligar para casa, ninguém atendia, tentei o celular do meu irmão e dizia estar desligado. Comecei a temer o pior, pensei que algum bandido tivesse invadido nossa casa entre outras coisas terríveis, mas o que eu iria presenciar era tão terrível que nunca sequer havia passado pela minha mente.

Cheguei em casa tremendo, quase não consegui encaixar a chave na porta. Entrei gritando por Jaqueline e pelo meu irmão, mas não havia resposta. Procurei em todos os cômodos e nada encontrei, desesperado fui em direção ao telefone, para ligar para a polícia. O suporte do telefone ficava perto da escada que descia ao porão. Ao passar em frente à escada, vislumbrei o bruxeleio de uma luz vermelha vindo lá de baixo, também ouvi cânticos. Desci as escadas devagar, já temendo o que iria encontrar. A cada degrau que eu descia, mais quente ficava e mais forte o brilho vermelho que vinha por baixo da porta. O som de cânticos também se tornava mais alto. Cheguei à porta e encostei na maçaneta, ela estava tão quente que tive que soltá-la, então empurrei a porta sem tocar na maçaneta.

Ainda hoje, 5 anos depois, quase tudo continua tão nítido na minha mente, como se tivesse sido ontem. A porta abriu devagar, a luz vermelha inundava o corredor aos poucos, os cânticos ficavam mais altos, o calor emanava da sala em lufadas. Meus olhos demoraram um pouco para se acostumarem com o tom vermelho da sala. A porta finalmente se abriu completamente, parece que levou horas para que acontecesse, mas foram apenas alguns milésimos de segundos. A luz vinha de centenas, talvez milhares de velas espalhadas pelo porão, no centro havia um pentagrama com uma vela em cada ponta. Sobre ele, jazia Sofia, completamente nua, com pinturas ritualísticas por todo o seu corpo. Ela se masturbava se contercendo como uma serpente. Seus olhos estavam completamente brancos e de sua boca saíam os cânticos que eu escutei lá de cima. Não sei em que língua eram, mas não era nenhuma língua conhecida pelo homem, pelo menos não pelos homens atuais. Sei disso, pois a música me atingia diretamente na mente e não nos ouvidos. Minhas pernas fraquejaram ao olhar mais adiante. Após Sofia, estava meu irmão, de costas, trajando uma espécie de vestimenta de monge. Suas mãos estavam suspensa sobre sua cabeça, segurando uma adaga imensa, com lâmina curva e cabo trabalhado. Ele pronunciava palavras incompreensíveis. Eu estava completamente hipnotizando e levei mais tempo do que deveria para identificar o que estava deitado à frente de meu irmão, em uma espécie de altar. Era a minha Jaqueline, minha linda filha. Ela estava com os braços e pernas presos às extremidades do altar, se contorcendo, tentando se livrar. Seu corpo estava completamente pintado, com símbolos parecidos com os de Sofia. Tão pequena e parecendo tão assustada. Seu corpo se movia em espamos, tentando inutilmente livrar seus bracinhos e pernas. Por um momento seus olhos encontraram os meus e ela gritou "Papai, me tira daqui, por favor.", começando a soluçar e chorar logo em seguida. Suas força tinham se esgotado e ela parou de se contorcer. Minha petrificação passou e comecei a correr em direção ao meu irmão, mas parecia que agora tudo se movia em câmera lenta. Vi os braços do meu irmão se abaixarem com força e fúria, enfiando a adaga no ventre de minha filha, enquanto ele puxava a adaga até o seu pescoço, rasgando-a de baixo para cima, ele entoava mais palavras, agora de forma que eu as compreendia e nunca mais as esqueci:

- Senhor de todo o mau, lorde das profundezas. Ofereço esta, sangue do meu sangue, pura e inocente, para ir no meu lugar, renovando o nosso pacto e me concedendo mais tempo.

Quando ele falou essas palavras, tudo se encaixou na minha mente e vi como havia sido tolo. Alcancei meu irmão e comecei a lutar com ele pela sua adaga. Ele ria loucamente, completamente fora de si e dizia "É tarde demais, é tarde demais. Ele já está vindo. Agora está feito. Terei mais tempo finalmente." O porão começou a tremer, a escuridão se tornou tão densa que as velas mal iluminavam o ambiente. Um cheiro terrível inundou a sala e na parede à frente do altar, um buraco começou a se abrir. Começou pequeno como uma moeda e foi se alargando, o som que emanava dele era como o lamento de milhões de almas, segurei as mãos junto aos ouvidos e caí de joelho, mas sem conseguir tirar os olhos do buraco que se abria. Ao atingir um certo tamanho, também consegui ver coisas lá dentro. Acho que hoje a minha mente já bloqueou a a pior parte do acontecido, pois de outra forma eu realmente estaria louco, como eles insistem em dizer que estou. Eu vi um corredor dentro do buraco, suas paredes eram feitas de tecido humando e vários corpos estavam presos à parede, ou melhor, faziam parte da parede, eles pareciam tentar soltar-se dela e não conseguiam, mas pedaços daquelas coisas caíam cada vez que tentavam se soltar. No final do corredor eu via o que pareciam ser olhos vermelhos, imensos, cada vez mais perto. Eu já conseguia ouvir o som de sua respiração e ouvia o arrastar dos seus passos. Uma mão saiu do buraco e segurou em sua borda, era imensa e cheia de escamas, com compridas garras negras e manchadas de sangue. Seguida de sua mão, veio sua abissal cabeça, olhar para aquela coisa era como olhar para todos os pecados do mundo, ela emanava ódio, dor e sofrimento. Um líquido escuro como esgoto escorria de alguns dos seus olhos e sangue escorria dos outros. As criaturas presas à parede de carne do túnel emitiam ruídos cada vez mais altos e repletos de sofrimento. O demônio abissal aproximou a sua outra mão do corpo inerte de minha filha e por um momento, o vi retirar sua alma do corpo, enquanto de uma deformação que acredito ser sua boca, ele emitia uma espécie de sorriso e coisas se moviam do outro lado dos seus dentes disformes. Esse único momento em que avistei a alma de minha filha, foi suficiente para entender que ela estava perdida se eu não fizesse algo rápido, estaria condenada à uma eternindade de sofrimento, mesmo sem merecer. Ignorei os gritos que vinham do buraco, tomei a adaga de meu irmão, cortei-lhe a garganta enquanto ela ainda ria loucamente. Gritei para o demônio "Leve-o, leve-o! Ele é quem deve ir. Por favor, leve-o no lugar dela." A criatura parou por um momento, que a mim pareceu uma eternidade, esticou sua outra mão em direção ao corpo do meu irmão e retirou também sua alma. Pude sentir o terror emanando dele, ele não esperava ser levado agora. Ainda conseguia ouvir, ou sentir, em minha mente, suas palavras "Agora não, agora não. Temos um trato. Ela vai no meu lugar. Você não pode me trair...". A criatura ignorou suas súplicas e puxava seu imenso corpo de volta para o buraco com a alma de minha filha em uma mão e a de meu irmão na outra. Ainda estava pensando no que mais eu poderia fazer para livrar minha garotinha, quando senti uma forte pancada na cabeça. Eu havia esquecido completamente da comparsa do meu irmão.

Acordei horas depois, com a polícia batendo em minha cara. Fui preso, julgado culpado pela morte de minha filha e meu irmão em um ritual satânico. Sofia desapareceu novamente. Tentei contar minha versão da história, mas acabei internado como louco e devo cumprir prisão perpétua por aqui. Ainda hoje chamo pelo demônio, ofereço minha alma pela da minha filha e ele não aparece, pelo menos não completamente ainda, mas consigo sentir o seu cheiro de podridão, ouço o lamento das almas do corredor e vejo o horror estampado no rosto de minha filha, cada vez mais próximos, toda noite, quando fecho meus olhos.